Novo sim, mas com grandes conquistas

 

Do Defelê ao Brasiliense a epopéia dos campeões de Brasília

 

Em meio a tijolos e poeira era iniciada a história do futebol de Brasília, protagonizada pelos operários das empreiteiras que levariam adiante a visão de Dom Bosco e o sonho de Juscelino Kubtcheck, a construção da nova capital. Nos campos de terra batida começava uma história paralela à da construção: o Campeonato Candango que, em 1959, já possuía o seu primeiro campeão, o Grêmio da Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante. Alguns dos primeiros times do Distrito Federal representavam as construtoras da época e  inclusive, seus nomes, como o time da Rabelo.

  O principal rival do Rabelo era o Defelê, patrocinado pelo antigo Departamento de Força e Luz, atual Companhia Energética de Brasília (CEB). Alaor Capela, jogador do Rabelo, veio  a Brasília para trabalhar, mas sua paixão pelo futebol mudou seus planos e destino. No primeiro treino pelo Rabelo, mostrou seu incrível talento para fazer gols- marcou sete- deixando técnico, diretores e companheiros de time animados para sua estréia no campeonato. 

                O primeiro jogo foi o clássico contra o Defelê, time onde atuava seu irmão. O placar final foi de 2×1, sendo que Alaor foi o responsável pela vitória. Após a partida, recebeu convite para jogar no rival. “Os diretores conversaram comigo e me ofereceram um emprego com um salário melhor, então, mudei de time e fui tricampeão pelo Defelê”. Apesar do pouco tempo em que atuou no Rabelo, seu nome ficou marcado na história do time pelo seu talento e dedicação.

 

   Nesse período, o campeonato era disputado por 13 equipes, não havia organização e faltava estrutura aos times que atuavam na capital. Ao longo dos jogos e disputas, muitas delas foram desaparecendo. À medida que as construtoras concluíam as obras, os jogadores-operários migravam para outras regiões do país para dar continuidade aos projetos das empresas. Houve tentativas de profissionalização quando foram organizados, simultaneamente, campeonatos profissionais e amadores entre 1964 e 1966, mas a iniciativa não vingou e o futebol em Brasília voltou a ser amador. Essa situação perdurou até 1976, quando o futebol candango se profissionalizou de vez. 

Arena vai mal, time no Nacional

             A Aliança Renovadora Nacional (Arena) era o partido político que apoiava o Estado durante o período da ditadura militar. Devido ao turbulento período vivenciado pela política brasileira, o futebol era usado como atração nos lugares onde a população possuía antipatia pelo governo. Os adversários da oposição aproveitaram para criar o slogan: “A Arena está mal, põe time no Nacional”.

 Brasília era uma das poucas unidades da Federação que não tinha time disputando o campeonato brasileiro. O jornalista esportivo Gustavo Mariani, um dos pioneiros na cobertura futebolística candanga, relembra o episódio envolvendo o então presidente da República o General Ernesto Geisel. “O João Havelange, presidente da Confederação Brasileira de Desporto (CBD), veio almoçar com o Geisel e disse que se em Brasília existisse um estádio para 40 mil pessoas, poderia ter um time no campeonato nacional”. A ordem foi acatada e o estádio construído, em plena ditadura militar.

     A realidade dos moradores de Brasília mudou naquele instante, pois o inimaginável havia acontecido. Os jogadores, que antes apareciam somente na televisão, poderiam ser vistos e aplaudidos ao vivo pela população.  O time convidado para representar a cidade foi o Ceub, que carregava a marca de uma faculdade brasiliense. 

     Os diretores do Ceub contrataram jogadores conhecidos, como Fio Maravilha, ex-jogador do Flamengo; Claúdio Garcia, ex-jogador do Fluminense; Oldair, campeão brasileiro pelo Atlético Mineiro. Juntos com os demais jogadores que se encontravam na cidade, aprontaram surpresas para os tradicionais times do futebol brasileiro, como o Cruzeiro e o Corinthinas, ambos vencidos em Brasília. O Ceub participou durante três anos do campeonato brasileiro.

           No meio da década de 70, o Ceub era considerado o melhor time da época. Sua sede e torcida eram formadas basicamente por moradores do Plano Piloto. Em 1975, a Associação dos Clubes dos Diretores Lojistas do DF resolveu fundar o Brasília Esporte Clube para dividir a paixão dos torcedores, entretanto, a rivalidade durou menos de um ano. Um desentendimento nesse mesmo ano entre o Ceub e a Federação desencadeou o fim do clube. 

     O Campeonato Brasiliense possuía três fases e o Ceub já tinha faturado as duas primeiras e liderava o terceiro e último turno. No entanto, a Federação resolveu mudar a fórmula da disputa, obrigando o Ceub a disputar o quadrangular final. Em protesto, a mesa  diretoria do time resolve encerrar as atividades.       

 Brasília, o primeiro papa títulos da capital

 Com o encerramento das atividades pelo Ceub, o Brasília reinou soberano no Campeonato Candango e venceu três campeonatos seguidos, 1976/1977/1978. Os dois primeiros títulos foram vencidos com folga, mas, em 1978, um time da Cidade Satélite de Taguatinga surgiu para tentar desbancar o poderoso Brasília.

Originado a partir da fusão entre os times amadores, o Taguatinga Esporte Clube conseguiu dar um calor no bicampeão da cidade. Apresentou aos torcedores um jogador com nome de fruta, detentor de futebol de craque e que se transformaria em ídolo local: Ernane Banana.

            Banana, como até hoje é conhecido, atualmente é empresário, mas o futebol ainda está presente em sua vida, vivo, em recordações. Ele relembra com saudade o tempo em que atuou pelo Pioneira equipe que, mais tarde, se transformaria no Taguatinga. O time disputou o Torneio Imprensa e foi vice-campeão. No ano seguinte, o talentoso jogador foi emprestado ao Vasco da Gama, ficando por lá nove meses. Mas, devido ao elevado valor do passe pedido pela equipe candanga, retornou à capital e foi jogar no Brasília, onde foi tricampeão.

          A hegemonia do Brasília só foi interrompida quando os empresários da cidade satélite do Gama resolveram injetar recursos no time da cidade. Contrataram jogadores de outros Estados, entre eles o artilheiro “Fantato” e o técnico de renome nacional Martin Francisco, que treinou durante muito tempo o Vasco da Gama. O time do Gama foi campeão invicto.

        O campeonato candango começa a despertar o interesse do público e dos empresários locais. Observando o sucesso do Brasília e o surgimento do Gama, as empresas e Administrações Regionais resolveram investir em patrocínio. Como o Brasília possuía melhor estrutura que a dos seus adversários, terminou a década de 80 como o time que obteve mais conquistas no Campeonato Candango, ao todo, cinco. Posteriores a ele vieram o Sobradinho e Taguatinga, com duas conquistas, e o Tiradentes, da Polícia Militar de Brasília, com uma conquista- nenhum jogador do Tiradentes pertencia à corporação militar. 

Década de 90: o Gama faz história no cenário nacional 

            O Brasília entra em decadência técnica e financeira nos anos 90 e, com isso, abre espaço para o seu maior adversário, o Gama.  Para surpresa e felicidade dos seus torcedores, marcou nome no cenário nacional conquistando para Brasília o título inédito do o campeonato brasileiro da segunda divisão em 1998, fato jamais alcançado por times da região Centro-Oeste.                                                                     

            Vendo o crescimento notório do futebol de Brasília, surgiram dois novos times para fazer história no futebol local. O CFZ, cujo dono é o ex-jogador Zico, foi campeão 2002 do Campeonato Brasiliense. E um repentino escândalo político mudou a história do futebol no Distrito Federal. 

            A cassação do mandato do senador Luís Estevão por suposto envolvimento em irregularidades na construção do prédio do Tribunal Regional de São Paulo, fez com que ele passasse a dedicar seu tempo ao futebol. Em 02 de agosto de 2002 era criado o Brasiliense, time que depois ficaria conhecido como o Jacaré.

            Contraponto a tendência do início de 2000, o Gama não continuou a liderar isolado o futebol local. Com a criação do CFZ e do Brasiliense, sua hegemonia é abalada. O CFZ marcou vitória em 2002 e depois o Brasiliense foi campeão seis vezes consecutivas. A rivalidade entre Gama e Brasiliense vem crescendo a cada competição e tudo indicada uma acirrada disputa para o próximo campeonato.

            Com a conquista da segunda divisão brasileira em 1998 pelo Gama, o Brasiliense planeja uma conquista semelhante ou superior a do seu arquiinimigo. Em 2002, colocou seu nome no cenário nacional, vencendo a terceira divisão do Campeonato Brasileiro e sendo vice-campeão da Copa do Brasil, um feito inédito para um time que tinha apenas dois anos de existência. Em 2004, vence a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e mostra que Brasília tinha qualidade e potencial de crescimento.

  Desafios para o futuro

O desafio da Federação é fazer um campeonato rentável, com maior participação do público, meta que só será alcançada quando houver mudanças na estrutura dos clubes e investimentos em segurança e conforto dentro e fora dos estádios. Para Ernane Banana, ainda falta incentivo de órgãos privados no campeonato brasiliense. “Hoje é tudo mais difícil, falta apóio das empresas, do governo” disse.

O campeonato brasiliense de 2009 foi disputado por oito times em três fases. Na primeira, as equipes jogaram entre si, com jogos de ida e volta, sendo que os quatros colocados se classificaram para a segunda fase, novamente em jogos de ida e volta. Os times que disputaram os jogos finais foram os tradicionais adversários Brasiliense e Gama.

 Copa de investimentos  

Após a confirmação da copa de 2014 no Brasil, os times brasilienses passaram a viver na expectativa de investimentos em infra-estrutura nos estádios do DF.  Alguns deles serão restaurados ao longo dos próximos cinco anos para se adequarem às normas divulgadas pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), como por exemplo, o Mané Garrincha, estimando uma reforma para receber até 100 mil torcedores.  No final de 2008, o jogo da seleção brasileira de futebol contra a seleção portuguesa reabriu o estádio Bezerrão, que passou por uma maratona de reformas para atender as regras pré-estabelecidas.

O local foi vistoriado e aprovado pelos representantes da FIFA e Brasília foi escolhida para ser uma das sedes da Copa e, com isso, a cidade entrou na briga com São Paulo e Belo Horizonte para decidir em qual capital receberá o jogo inaugural. No DF, o estádio mais cotado é o Mané Garrincha. Para o vice-presidente da FBF, Brasília possui grandes chances de sediar o primeiro jogo. “São Paulo está na disputa, mas sempre a capital do País organizador é favorita na disputa. Tem que demonstrar capacidade e organização”, disse. “O futebol de Brasília está em ascensão e a tendência é progredir cada vez mais”, conclui Paulo.

Ano Campeão Vice-Campeão  
1959 Grêmio Brasiliense       Planalto  
1960 Defelê  Guará  
1961 Defelê  Rabello  
1962 Defelê  Colombo  
1963 Cruzeiro do Sul Rabello  
1964 Guanabara Dínamo  
1965 Pederneiras Guanabara  
1966 Rabello Luziânia-GO
1967 Rabello Cruzeiro do Sul
1968 Defelê Rabello
1969 Coenge Grêmio Brasiliense
1970 Grêmio Brasiliense Civilsan
1971 Colombo Serviço Gráfico
1972 Serviço Gráfico CEUB
1973 CEUB Relações Exteriores
1974 Pioneira Jaguar
1975 Campineira C.S.U
1976 Brasília Guará
1977 Brasília Desportiva Bandeirante
1978 Brasília Taguatinga
1979 Gama Brasília
1980 Brasília Gama
1981 Taguatinga Guará
1982 Brasília Guará
1983 Brasília Guará
1984 Brasília Sobradinho
1985 Sobradinho Taguatinga
1986 Sobradinho Taguatinga
1987 Brasília Taguatinga
1988 Tiradentes Guará
1989 Taguatinga       Sobradinho
1990 Gama Taguatinga
1991 Taguatinga       Guará
1992 Taguatinga       Tiradentes
1993 Taguatinga       Gama
1994 Gama Sobradinho
1995 Gama Brasília
1996 Guará Gama
1997 Gama Brasília
1998 Gama Guará
1999 Gama Dom Pedro II
2000 Gama Bandeirante
2001 Gama Brasiliense
2002 CFZ Gama
2003 Brasiliense        Brasiliense
2004 Brasiliense        CFZ
2005 Brasiliense        Ceilândia
2006 Brasiliense        Gama
2007 Brasiliense        Esportivo
2008 Brasiliense        Dom Pedro II
2009 Brasiliense        Brasília

 

Olavo Denecial, Soraya Lustosa e Lúria Rezende

Uma resposta para Novo sim, mas com grandes conquistas

  1. Alaor Capella,
    o que falar desse grande jogador??? só dizer que foi muito importante para o futebol nacional e de Brasília… Um grande homem….fico muito feliz de poder seu seu neto e tenho um orgulho enorme disso…Grande Capella

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